Um case interessante foi relatado em uma conferência realizada em abril de 2008 na Universidade de Berkeley. A palestra foi proferida pelo Sr. Steve Wright, principal executivo da British Telecom (BT), responsável pela estratégia de investimento e relacionamentos externos voltados à pesquisa.

Para a BT, as motivações para os avanços na pesquisa e desenvolvimento são bem claras: o mercado em que atua é incerto e fortemente regulamentado e, hoje, as pessoas possuem uma grande mobilidade (tanto os clientes quanto os funcionários). São pilares sobre os quais a empresa não tem controle e, mesmo assim, precisa agir de forma inovadora para desenvolver tecnologia.

No mercado de telecom o grande desafio pelo qual passam as operadoras incumbents é o acirramento da concorrência com outros players do mesmo mercado, bem como as ameaças advindas de empresas que, não necessariamente, são fornecedoras de infra-estrutura de rede, mas que também oferecem serviços de comunicação aos clientes. É a convergência para as redes IP que acaba trazendo cada vez mais competidores para o mercado de comunicações globais.

Consciente disso, a BT está seguindo uma estratégia de se transformar em uma empresa de comunicação global, baseada em serviços de comunicação e entretenimento. E com essa estratégia pretende manter o market-share dos negócios tradicionais e ser uma fornecedora de serviços e soluções inovadoras. Mas que soluções seriam essas?

Nos pilares de pesquisa e desenvolvimento da BT, a busca por soluções diferentes aos clientes passa por diversas linhas: saúde, mobilidade, voz sobre IP, convergência de serviços telefônicos, etc. Nessas diversas linhas de desenvolvimento, há várias formas de se atingir o mercado: tanto pelo caminho tradicional (telefonia, banda larga e TV), como através de serviços que podem virar uma nova empresa ou tecnologias que podem ser licenciadas (é a abertura nos caminhos ao mercado para as tecnologias).

Do outro lado, há uma vasta gama de parcerias, tanto com universidades, como com empresas parceiras, as chamadas alianças estratégias. O grande case da BT é sua aliança com a HP. Elas trabalham juntas para desenvolver soluções aos seus clientes: a HP fornecendo serviços de TI e a BT fornecendo infra-estrutura e serviços de comunicação. Curioso que o próprio Steve, que está há cerca de cinco anos no comando das estratégias de investimento em pesquisa na BT. Antes ele trabalhou por longos anos na HP Laboratories, tendo fundado, inclusive, a HP Internet Research Institute (o que mostra a importância da mobilidade da mão-de-obra).

Esse ecossistema traz dificuldades para a empresa, mas não exatamente problemas de pesquisa. Segundo Steve, são os problemas de gestão desses projetos colaborativos que podem acabar resultando em trabalhos de menor qualidade, pela dificuldade que se tem em controlar todos os elos da cadeia. Portanto, o foco deve ser o aprimoramento dos processos de gestão nesse ambiente de Open Innovation: junto às universidades, a BT trabalha com convênios para poder tratar não só da gestão desses projetos, como com as questões legais de propriedade intelectual; quando se fala de relação empresa-empresa, as parcerias são mais complexas e devem ser negociadas caso a caso, principalmente em relacionamentos junto a clientes (no caso da BT, há relações diretas laboratório-laboratório com alguns importantes clientes).

Diante desse cenário, parece razoável dizer que a colaboração (talvez o termo preferido da abertura nesse processo) é uma alternativa em pleno funcionamento dentro da BT. E como eles lidaram com essas possibilidades de colaboração dentro dos seus próprios times, ou seja, trataram a síndrome do “Not Invented Here” nesse processo de transformação?

Primeiramente, vale ressaltar que a própria gama de áreas em que a empresa atua e a limitação de seus recursos já tinha uma pré-disposição ao processo de abertura e colaboração. Além disso, os profissionais da BT foram colocados em contato com pesquisadores de outras empresas, bem como foram trazidos alguns novos pesquisadores de outras companhias para atender às demandas de novos negócios que iam surgindo. O próprio caso do Steve saindo da HP e vindo para a BT exemplifica esse processo de mudança de mentalidade. Além disso, a BT estabeleceu dois centros de pesquisa (uma na Índia e um na China) para se aproximar e entender esses mercados, e com isso poder desenvolver soluções adequadas para essas grandes oportunidades de mercado.

Esse cenário de globalização realmente empurrou a British Telecom para o Open Innovation. Apesar de não se tratar de uma empresa industrial, mas sim de uma grande prestadora de serviços, viu-se que é possível desenvolver novos serviços de forma colaborativa, através de parceiras estratégicas mais focadas no cliente e em suas necessidades. No trabalho de forma mais aberta aparecem maiores dificuldades do que antes no que se refere às questões de gestão de projetos e da propriedade intelectual. Entretanto, no caso da BT a junção de uma infra-estrutura de redes mais modernas e com serviços realmente inovadores, tem sido o ponto forte nos enfrentamentos de mercado.